Nelson de Souza Lima - especial para o Combate Rock
Há exatos 40 anos, Terezinha Maria Miranda Espíndola, cantora saída do Centro-Oeste conquistava o Brasil. Também instrumentista e compositora Tetê Espíndola, nascida em Campo Grande (MS) encantou multidões pela voz incomum.
Com timbre muito agudo e de longa extensão venceu “O Festival dos Festivais, da Rede Globo, interpretando “Escrito nas Estrelas”. De autoria de Arnaldo Black e Carlos Rennó a canção se tornou obrigatória no repertório de Tetê, sendo, talvez, seu maior sucesso. “Escrito nas Estrelas” atravessou o tempo e, recentemente se tornou líder no streaming, após a regravação da goiana Lauana Prado.
Com arranjo entre o popnejo e a guarânia a canção conquistou novos admiradores. Para Espíndola esse novo momento da música foi uma surpresa que teve grande impacto em sua carreira, trazendo uma valorização dos compositores.
“Também aconteceu graças a Márcia Fu, que cantou a música em um reality show. Para mim, foi uma alegria ser descoberta por uma nova geração que começou a me acompanhar nas redes e nos meus shows”, diz a campo-grandense.
E é exatamente o palco o habitat natural de Tetê Espíndola. Percorrendo o Brasil desde 2017 com o show “A Era dos Festivais” a cantora interpreta canções icônicas da música brasileira as quais despontaram no período dos grandes festivais entre 1965 e 1985.
Além de marcar os quarenta anos da vitória de Espíndola no Festival dos Festivais, 2025 também relembra os sessenta anos do 1º Festival da Música Popular Brasileira da TV Excelsior, vencido por Elis Regina com “Arrastão”, de Edu Lobo.
“Acredito que este show é uma boa oportunidade para lançar luz sobre a história, valorizar o que nos torna mais brasileiros e resgatar aquilo que nos conecta e nos impulsiona, revelando o melhor de nossa memória musical”, diz Tetê.
Ela enumera canções importantes que marcaram sua vida e seu repertório: “Alegria, Alegria” (Caetano Veloso), “Ponteio” (Edu Lobo/Capinam), “2001” (Tom Zé), “Disparada” (Geraldo Vandré/Théo de Barros) e “Domingo no Parque” (Gilberto Gil); “Elas são, para mim, as canções mais representativas dessa época, e não poderiam faltar no repertório”, atesta a cantora.
No palco, acompanhada pelo irmão Sérgio ou por banda completa, a multiartista reconstrói “a trajetória da MPB com músicas que marcaram época, influenciaram a cultura nacional e também a minha formação musical, até o momento em que se cruzam e me colocam na história dos festivais”.
Celebrando essa boa fase Tetê e Sérgio Espíndola sobem ao palco do Centro Cultura Penha, em 8 de março, Dia da Mulher, em apresentação única e imperdível.
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Tetê Espíndola (FOTO: DIVULGAÇÃO) |
Leia a entrevista com Tetê Espíndola.
Este ano é bastante emblemático para você e também para a história do Brasil. Visto que em 1985 “Escrito Nas Estrelas” venceu o Festival dos Festivais, último grande do país, marcou o fim da Ditadura Militar, além dos 60 anos do I Festival de Música Brasileira. Como você vê esses momentos na sua carreira e para o Brasil?
Tetê Espíndola: O momento é de comemoração: celebrar nossa música popular brasileira e seus grandes intérpretes. Uma intérprete que marcou muito a minha infância foi Elis Regina, que venceu, justamente, o Festival de 1965 com “Arrastão”. Exatos 20 anos depois, eu venci o Festival dos Festivais como intérprete de “Escrito nas Estrelas”. Esse fato me inspirou a montar este show da Era dos Festivais, que me conecta diretamente com toda a atmosfera dos festivais de canções.
Ôs festivais tiveram grande relevância, uma vez que aconteceram entre 1965 e 1985, praticamente o mesmo tempo de duração da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985). A “era de ouro” dos festivais rolou entre 1965 e 1968 com canções de protesto, que desagradaram os militares a ponto de mandarem para o exílio, Chico, Caetano, Gil, entre outros. Queria que falasse da importância desses primeiros festivais. Os mais significativos foram os de 1967 e 1968. Pode avaliar esses dois em especial, por favor?
O festival mais significativo para mim foi o de 1967, onde Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e Edu Lobo se apresentaram com canções emblemáticas, cultuadas como uma revolução musical e política. “Alegria, Alegria”, “2001”, “Disparada”, “Ponteio” e “Domingo no Parque” são, para mim, as canções mais representativas dessa época, e não poderiam faltar no repertório deste show. Acredito que este show é uma boa oportunidade para lançar luz sobre a história, valorizar o que nos torna mais brasileiros e resgatar aquilo que nos conecta e nos impulsiona, revelando o melhor de nossa memória musical.
Com a decretação do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, o chamado “golpe dentro do golpe” que cerceou ainda mais os direitos civis, os festivais ficaram alijados de composições mais contundentes. Mesmo assim grandes autores e intérpretes apareceram. E muitas emissoras de TV também visavam capitalizar com os eventos. Como você vê a década de 70 e qual festival destacaria naquela década.
Tenho uma memória muito pessoal da década de 70, quando ainda vivia em Campo Grande com meus irmãos. A influência da Jovem Guarda e da Tropicália teve um papel importante na transformação da música no interior. As guitarras estavam emergindo de uma forma que tomou conta da rapaziada da minha cidade, e foi nessa época que ganhei meu primeiro prêmio como melhor intérprete, com a canção “Sorriso”, de Geraldo Azevedo, que hoje também integra o repertório do meu show.
Por que os festivais perderam relevância na nossa música. Hoje a coisa tá muito pasteurizada com canções sendo feitas como em linha de montagem e totalmente descartáveis. Festivais não cabem mais nos dias de hoje ou cabem?
Eu sinto muita falta dos grandes festivais, mas sei que eles marcam uma época e hoje tudo está diferente. Mas recentemente participei de um festival maravilhoso em Maricá o “Festival da Canção Escrito nas Estrelas” em que eu fiz o Show “A Era dos Festivais” na abertura e notei que o Brasil possui grandes compositores e intérpretes nessa nova geração. Hoje em dia o veículo de revelação é através das redes sociais onde todos os dias aparecem novos trabalhos, mas acredito que ainda existem bons festivais pelo Brasil.
Você está realizando o show “A Era dos Festivais” ao lado de seu irmão e violonista Sérgio Espíndola. Vocês fazem um repertório cronológico? Naturalmente tocam as canções vencedoras como “Ponteio” (Edu Lobo/Capinam), que ganhou o festival de 67 e outras que não ganharam, mas significativas como “Carolina” (Chico Buarque) que ficou em 3° lugar no II FIC (Festival Internacional da Canção), também em 1967. Como foi chegar nesse repertório?
Meu trabalho não tem a pretensão de perfilar uma coleção de vencedores de festivais, mas de trazer minha visão pessoal, colocando em paralelo duas linhas do tempo: a dos festivais e a da minha própria vida, tanto pessoal quanto artística. Essas linhas reconstroem a trajetória da MPB com músicas que marcaram época, influenciaram a cultura nacional e também a minha formação musical, até o momento em que se cruzam e me colocam na história dos festivais.
Vocês estão circulando o Brasil com a turnê “A Era dos Festivais”?
A Era dos Festivais é um show que percorre o Brasil desde 2017. Eu comecei esse show após ser contemplada pelo edital da caixa econômica e em que rodamos diversos estados brasileiros. É um show que faz parte da minha vida e desde então todos os anos realizamos em dois formatos em Recital, somente eu e Sérgio e o formato com a banda que realizamos o último em novembro de 2024 no Festival da Canção ‘Escrito Nas Estrelas’ em Maricá em que eu fui a embaixatriz do Festival.
Claro que a “cereja do bolo” é “Escrito nas Estrelas”, com a qual venceu o “Festival dos Festivais”, em 1985. A música foi regravada recentemente pela goiana Lauana Prado, numa versão mais popnejo/guarânia e que estourou nas plataformas digitais. Como você e os autores da música Arnaldo Black e Carlos Rennó veem como a música tem sido apresentada para novos fãs.
TE: Esse novo momento da canção Escrito nas Estrelas foi primeiro de tudo uma surpresa que teve grande impacto na minha carreira, além de trazer novamente uma valorização aos autores da música. Também foi um momento que aconteceu graças a Márcia Fu, que cantou a música em um reality show. Para mim, foi uma alegria ser descoberta por uma nova geração que começou a me acompanhar nas redes e nos meus shows.
SERVIÇO
Tetê e Sérgio Espíndola
Show: A Era dos Festivais
Dia: 8 de março – sábado – 20 horas
Grátis
Duração: 60 minutos
Livre
Centro Cultural Penha
Largo do Rosário, 20 – A dez minutos de caminhada da Estação Penha do Metrô – Linha 3 Vermelha
Retirar ingressos uma hora antes na bilheteria
Inf: (11) 2092-3007
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