sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Os 45 anos do Rainbow, a banda que resgatou o guitarrista Ritchie Blackmore


Marcelo Moreira

Ritchie Blackmore no auge do Rainbow, na segunda metade dos anos 70 (FOTO: DIVULGAÇÃO)
Qualquer um estaria rindo e se deliciando. Sua banda vinha em um sucesso crescente, apesar das turbulências internas. Só que, depois de quatro anos com a formação estável, o vocalista e o baixista saem.

O difícil processo de seleção dos substitutos coloca um ponto de interrogação no futuro. Mas eis que o primeiro álbum com os novatos estoura de vendas, com o surgimento de um dos maiores hits roqueiros de todos os tempos.

Qualquer um ficaria feliz, mas o guitarrista Ritchie Blackmore não ficou. No máximo, estava satisfeito com o sucesso do álbum "Burn", do Deep Purple, de 1974, com David Coverdale (vocais) e Glenn Hughes (baixo e vocais) nos lugares de Ian Gillan (vocais) e Roger Glover (baixo).

Irascível, genioso e perfeccionista, Blackmore sentiu que a mudança de direção musical foi brusca demais. O Deep Purple ainda era pesado, mas estava mais funky e mais black, com nítidas tendências para a soul music.

A coisa piorou quando, no mesmo ano, veio "Stormbringer", outro excelente álbum, mas que aprofundou as tendências citadas graças às composições de Coverdale e Hughes.

A banda ficou incontrolável por conta dos abusos de drogas e álcool dos novatos e da passividade e omissão dos antigos companheiros fundadores - Jon Lord (tecladista) e Ian Paice (baterista).

A turnê europeia de 1975 foi a gota d'água e Blackmore não teve remorso algum em abandonar o seu grupo, que fundara em 1967, para criar o seu projeto sem ter de aturar novatos enxeridos e o pouco caso dos antigos colegas.

Assim, há 45 anos, Ritchie Blackmore saía do Deep Purple para criar o majestoso Rainbow, que começou como Ritchie Blackmore's Rainbow, uma das grandes bandas de rock dos anos 70.

Os tempos logo se mostrariam difíceis, mas o guitarrista foi em frente e ousou em diversos aspectos, mostrando o caminho que o Purple teria trilhado caso ele continuasse.

Chefão autoritário e exigente

Sem ter de dividir solos e harmonias com o genial Jon Lord, Blackmore adicionou mais peso ao seu som, com grandes solos em músicas muito inspiradas, graças à ajuda inestimável de Ronnie James Dio, que finalmente via o sucesso chegar tardiamente.

O Rainbow absorveu totalmente a banda ELF, do vocalista Dio, por indicação de Roger Glover, que tinha virado produtor e reatado a amizade com o guitarrista - três anos depois, assumiria o baixo da banda.

Enquanto Dio esteve na banda o Rainbow brilhou, especialmente com o fim do Deep Purple, em 1976, com as pausas de Who e Led Zeppelin na segunda metade da década de 70, com a mudança de direção artística do Queen e com o ocaso e decadência criativa de Black Sabbath e Uriah Heep. Sobraram apenas o Thin Lizzy, o Bad Company, o Kiss e o Aerosmith para competir.

Com o Rainbow mostrando entrosamento e vigor, Blackmore ressurgiu como protagonista no chamado hard rock setentista, ainda que houvesse inúmeras mudanças na formação.


Capa do programa oficial dos shows da turnê de 1977-1978,, do disco 'Long Live Rock'n'Roll': da esq. para a dir., Blackmore, Bob Daisley (baixo), David Stone (teclados), Dio (vocais) e Cozy Powell (bateria)

Com rígido comando, o guitarrista construiu ao lado de Dio uma sólida carreira musical e com hits poderosos, como "Man on the Silver Mountain", Kill the King", "Catch the Rainbow" e o hino "Long Live Rock'n'Roll".

Transitando com maestria entre o hard e o heavy, o Rainbow serviu de base e influência para a chamada New Wave of British Heavy Metal em 1980. Ao lado do Judas Priest, enfrentou com dignidade a praga da disco music e a iconoclastia do movimento punk,

Dio não resistiu por muito tempo infelizmente, saindo em 1978 após três grandes álbuns de estúdio e um ao vivo. Blackmore queria suavizar o som e soar mais pop, com canções de amor.

O vocalista se opôs e se recusou a escrever letras românticas, e aproveitou a deixa para se livrar da ditadura musical e administrativa. No ano seguinte, assumiria os vocais do Black Sabbath no lugar de Ozzy Osbourne.

"Ritchie é um vampiro artístico, suga tudo o que pode das pessoas que estão ao se u lado e que trabalham com ele. Além disso, tudo só acontece com a sua aprovação, não há liberdade ao seu lado", comentou em entrevista coletiva em São Paulo em 1992, quando se apresentou com o Black Sabbath por aqui.

Capa do programa oficial dos shows da turnê de 1977-1978,, do disco 'Long Live Rock'n'Roll': da esq. para a dir., Blackmore, Bob Daisley (baixo), David Stone (teclados), Dio (vocais) e Cozy Powell (bateria)

Mais acessível

Blackmore seguiu em frente e sua vontade foi feita. Com Graham Bonnet, então um cantor inglês sem grande destaque que tentava decolar em Los Angeles, o som ficou mais acessível, tanto que a música mais importante do período, "Since You Been Gone", é uma versão para um clássico do compositor pop Russ Ballard - conhecido em parte por compor parte expressiva das canções da carreira solo de Roger Daltrey (The Who).

A versão ficou ótima e pesada, e fez sucesso, assim como o álbum "Down to Earth", de 1979, mas não foi o bastante para o guitarrista. Bonnet não durou muito, já que nunca foi fã de heavy metal e odiava a ditadura blackmoriana.

Coube ao jovem dócil e deslumbrado Joe Lynn Turner assumir os vocais, acentuado o viés pop e mais acessível. Foram quatro anos de tentativas interessantes, mas sem o mesmo brilho do começo - ficou a sensação de que os fãs antigos torceram o nariz e não aprovaram, sem que conquistasse muitos novos fãs.

O álbum "Difficult to Cure" até que deu um alento à banda, mas os dois seguintes venderam bem menso do que o esperado, e o inevitável acabou acontecendo: a formação clássica do Deep Purple voltou a se reunir em 1984, com Gillan e Glover de volta, e um reticente Blackmore aceitando, já que o Rainbow tinha sido engolido pelo Iron Maiden, pelo Judas Priest, por Ozzy Osbourne, pelo Def Leppard e pelo Saxon.

Além da inquestionável qualidade musical, a importância do Rainbow é a de resgatar em Blackmore o prazer de tocar e de criar rock de qualidade.

Nem mesmo a volta desnecessária da banda, em 1995, com o pouco inspirado "Stranger in Us All", com o então aspirante a astro Dougie White nos vocais, foi suficiente para manchar a trajetória vitoriosa do arco-íris pesado.

Em 2016, depois de anos se dedicando ao Blackmore's Night, projeto com a mulher, Candice Night, onde mergulhava na música medieval, barroca e renascentista, resgatou o Rainbow com uma formação completamente nova, tendo o cantor norte-americano Ronnie Romero nos vocais.

A banda fez alguns shows na Europa e nos Estados Unidos entre 2016 e 2018, que renderam dois álbuns ao vivo, mas não há notícias de que Blackmore pretenda dar seguimento a essa formação ou gravar novo álbum.


Blackmore em foto promocional de seu projeto de música folk/medieval que mantém com a esposa, o Blackmore's Night (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Lenda

Esquivo e recluso, Blackmore nunca foi de dar entrevistas, ao mesmo tempo em que nunca se preocupou com meias palavras. Suas contendas com o vocalista Ian Gillan nos tempos de Deep Purple são apenas um exemplo de que o guitarrista fazia o possível para manter o controle da carreira e das bandas onde tocou. Aparentemente, só o amigo Jon Lord escapava de sua ira.

Independente da personalidade forte e temperamental, o septuagenário guitarrista está em qualquer lista de influências de grandes guitarristas dos anos 70 e 80.

Faz parte de um seleto grupo de ases do instrumento que transformaram o rock no que ele é - gente como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Jimmy Page, Jeff Beck, Tony Iommi, Keith Richards, Pete Townshend, Brian May, Mick Box e Steve Howe.

Persistente e culto, demorou para estourar no mundo pop, onde debutou em 1964. Após passar por várias bandas, encontrou no "maestro" Jon Lord e no virtuoso Ian Paice os parceiros ideais para destilar seu estilo de extrema técnica e com totais influências do mundo erudito, indo de Bach, Beethoven e Brahms a Toscanini e Mendelsohn.

Com a formação do Deep Purple em 1967, Blackmore experimentou um gostinho do sucesso, mas ainda insuficiente para sua ambição. O rock progressivo, psicodélico e experimental dos três primeiros álbuns, dominados por Lord, deram lugar ao rock pesado em 1969, com o estouro da banda a partir do álbum "In Rock" e novos integrantes - Gillan e Glover.

Gênio reconhecido, virou referência máxima do instrumento e até hoje recebe homenagens no mundo inteiro. Os brasileiros só tiveram duas oportunidade de vê-lo ao vivo, em 1991 com o Deep Purple e em 1995 com a última encarnação do Rainbow. Mesmo mal humorado, fez questão de mostrar as suas qualidades na maior parte dos shows por aqui.




Nenhum comentário:

Postar um comentário