segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Uma viola inspiradora

Ricardo Vignini (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Prefácio do livro "Ricardo Vignini - Partituras e Tablaturas", por Guarabyra Nery Guarabyra, da dupla Sá e Guarabyra:

Tempos atrás, um amigo do Paraná pediu que assistisse a um vídeo no Youtube, protagonizado por um violeiro que admirava. Assisti não apenas aquele vídeo, mas a vários clips do violeiro, que me fizeram ficar grudado no computador, hipnotizado por um bom tempo. 

Meses depois, meu amigo e parceiro Tuia, com quem já partilhava alguns shows, veio me dizer que um violeiro, seu parceiro de longa data, começaria a participar também de nossas apresentações. 

O leitor já deve ter adivinhado que se tratava do mesmo tocador de viola que passara a admirar meses antes. Coincidência, diriam. Pode ser. Mas já publiquei um livro de ficção em que o Deus do mundo que criei na história era chamado de Grande Acaso. Naquele mundo, acasos não aconteciam por acaso.

Por vezes, acho que, nesse mundo aqui, também não. Quando fiquei sabendo que, no início de sua vida musical, o irmão mais velho, que era guitarrista, por ciúmes e medo que danificasse o instrumento, não permitia que ele, irmão mais novo, dedilhasse sua guitarra, o que o obrigava a tocá-la às escondidas quando o mano não estava em casa, comecei a achar que era mais do que coincidência, já que havia enfrentado idêntico dilema antes de iniciar minha carreira, em relação ao violão de um de meus irmãos, que também tive que tocar escondido. Por isso, digo que já havia escutado o som de nossa amizade antes mesmo de nos conhecermos e de começar a admirá-lo.

Há de tudo para se considerar no toque de Vignini. A originalidade, a técnica, a criatividade, mas antes de tudo a beleza na maneira de expressar o que a alma do instrumento quer transmitir, tocar e falar à alma de quem escuta. 

É curioso como conseguiu juntar experiências de escolas muito distantes entre si, que vão desde o rock internacional mais pesado às canções mais doces do caipira autêntico brasileiro, e dessa forma, misturando ingredientes que muitos poderiam imaginar que fossem divergentes, criou uma culinária imaginativa e equilibrada, do mesmo modo como os grandes chefes de hoje descobrem mundos novos ao mesclar recursos de diferentes culturas. 

No caso de Vignini, acrescente-se que o resultado final da alquimia, magicamente, apesar de percorrer um mundão de estradas, manteve o tempero e o sabor da sonoridade brasileira. 

Feliz de quem estuda e pode contar com esse livro de receitas em forma de partituras. Uma ferramenta preciosa de lições provindas de muito experimento e aprendizado. Só não é mais feliz do que eu, que posso aprender no palco e no dia a dia, tanto as lições da música do violeiro quanto de vida desse mais do que precioso amigo.

Obrigado, meu velho, pela amizade e pelo som. Muito sucesso, e espero o meu exemplar autografado no próximo ensaio.






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