quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

A força do interior paulista: Dead or a Lie e The Giant Void

Quando os araraquarenses do Dead or a Lie lançaram "Monster" anos atrás, imaginava-se que o trio se tornasse referência na fusão entre o stoner rock e o metal moderno e alternativo tamanha a qualidade demonstrada. Mas aí vieram a degradação de um mercado que foi aprofundado pela pandemia de covid-19...

"Monster" era uma ventania de bom gosto e bom rock pesado que frequentou várias listas de melhores do ano, mas teve uma repercussão menor do que merecia e deveria ter tido. 

Para se vingar, a banda ressurge com o EP "Ambivalence", um trabalho ousado e ainda melhor do que o anterior. E é melhor porque é mais pesado e mais intenso, quase conceitual. 

É impressionante como a pesquisa minuciosa de timbres de guitarra de Matheus Vieira oferece um revestimento sonoro robusto para um conjunto poderoso de canções, acertando completamente.

"Ambivalence (On a Radioactive Planet)", o primeiro single do álbum "Ambivalence", é quase como uma síntese do EP: é uma baita canção pesadona e dramática  

"Essa composição foi à primeira escrita pelo disco, sendo à única que não teve nenhuma alteração no arranjo", afirma o guitarrista Matheus Vieira. "Ela resume bem a essência da banda, com uma guitarra groovada e uma linha vocal marcante."

A banda é muito habilidosa em compro canções que exacerbam a dramaticidade e o clima claustrofóbico dentro de um conceito bem definido. É o que podemos observar também em "Helpless Again", que abre o trabalho. É uma música forte e igualmente pesada, assim como a bela e pungente "The Price of Beauty", que tem uma letra muito bem colocada e elaborada.

"Amazement Garden" reforça o clima sufocante e pesado, oferecendo algumas alternativas instigantes e diferentes. O encerramento é épico com "An Eternity of Lies", mesmo que não seja extensa. É uma pena que "Ambivalence" seja apenas um EP, e não um ´lbum com mais músicas.

Sucessor de “Monster”, de 2020, “Ambivalence” é inspirado no conceito filosófico de ambivalência do renomado sociólogo polonês Zygmunt Bauman. A ideia é promover uma singular jornada musical, explorando, liricamente, as contradições da vida, o caos das emoções e a busca por significado em um mundo incerto.

Com produção, mixagem e masterização de Ali Zaher Jr (em seu estúdio em Araraquara/SP, o Sunrise Music), baixista da banda de hardcore paulistana CPM 22, o álbum contou com a participação do mesmo no baixo, além de Matheus Botelho (teclado) e Daniel Cestari (bateria).

Por conta de logística, o vocalista Wiliam Albino, pela primeira vez concentrou-se apenas nas linhas vocais, deixando a bateria de lado. “Tivemos que fazer um esforço mútuo para tirar esse projeto do papel. Felizmente, deu tudo certo. O resultado está matador”, pondera o guitarrista Carlos Oliveira.

Fundada no fim de 2009, foi headliner em duas edições do Araraquara Rock e uma vez do Festival Rock Na Estação (São Carlos); rodou o interior em shows em casas especializadas e também dividiu palco com Angra, Ratos de Porão, Viper, entre outros.

A Giant Void (o gigante vazio, na tradução livre) impressionou bastante quando lançou o seu primeiro álbum, em 2022. "Though Insertion" tinha todos os elementos das melhores obras de power metal - peso, velocidade e riffs ótimos, E acima de tudo, surpreendeu por conta de um vocalista improvável, Hugo Rafael, ex-integrante da banda Sambô e habitual participante de realities shows de voz na TV.

Idealizada em 2021 em Sorocaba (SP) pelo guitarrista e produtor musical Felipe Colenci, tem Rafael e um baterista de renome internacional, Michael Ehré (ex-Gamma Ray e Metaliun, atualmente no Primal Fear). 

As conexões de Colcenci fizeram ainda com que a estreia angariasse as participações do vocalista Adrián Barilari, da lendária banda argentina Rata Blanca, do baixista Tomas Andugar e do tecladista Francisco Rangel. 

A boa estreia elevou o patamar pretendido e colocou um dilema complicado para a maioria das bandas: como superar no segundo disco um estreia tão forte e impressionante?

Se isso era uma preocupação, não transparece no recém-lançado "Abyssal". No mínimo, e tão bom quanto o o anterior, mas é ais variado e, de certa forma, ambicioso.

“Abyssal foi o título encontrado por mim e nosso manager, Eliton Tomasi, para resumir o que queremos contar nas letras. Quando analisamos os textos, entendemos que todas as músicas falam de emoções profundas humanas, emoções basais, e o título em questão foi uma forma de resumir esse conteúdo. Não se trata de um álbum conceitual, mas podemos dizer que todas as letras tem conexão entre si”, explica Colenci.

"Dirty Sinner", primeiro single do novo álbum, parece ter saído das sessões do primeiro trabalho, já que tem uma continuidade em todos os sentidos. É rápida, velos e muito pesada. 

Além disso, tem um significado especial para a The Giant Void. “É uma canção escrita a três mãos, por mim, Hugo e nosso tecladista Chico Rangel, e fala dos nossos mais profundos pecados, e o quanto somos escravos deles – ou será que secretamente gostamos dos pecados que cometemos?”, questiona Colenci.

"Ashen Empires, part 2" ´ainda mais pesada e rápida, não dando fôlego para o ouvinte pensar no que está acontecendo. Com pleno domínio da canção, Rafael duela com a guitarra de Colenci co muita competência, especialmente nos momentos em que a linha vocal exigia destreza incomum.

"The Key", por sua vez, requeria uma certa versatilidade e também exigiu um trabalho diferente os vocais, enquanto que a guitarra construiu climas sólidos de tensão e medo. É a mais próxima do estilo do Iron Maiden,

 A produção detalhista de Felipe Colenci valoriza timbres de guitarra limpos e os floreios vocais de Radael, que ão soam exagerados, por mais que tenha recebido algumas criticas por cantar "gritando" demais. Nada fica fora do lugar, como é possível observar em "Monster Within"., que esbarra em influências de Helloween,

"The Black Pit" é puro Judas Priest, só que um pouco mais pesado e mergulhando no power metal em determinado momento da música, com um riff poderoso e ótimas construções melódica. 

Tem até hard rock, e muito bem feito, como é o caso de "Inner Truth" e "Mars", com riffs cativantes e totalmente inspirados nos anos 80, mas com uma pegada moderna. O refrão das segunda canção é muito bom.

"War Heroes", com seu clipe de animação excepcional, segue na mesma linha, mas e um pouco mais pesado e é lastreado por riffs contagiantes. Longa e com toques progressivos, á la Iron Maiden atual, é a melhor canção de "Abyssal".

Não há fragilidades. Pode-se penas questionar a canção "Ashen Empires, part 1" por ser muito calcada em Primal Fear, nos mínimos detalhes, principalmente nos riffs e "cavalgadas", mas a redenção vem com o encerramento: "Human Downfall" deveria ser um épico típico metal tradicional, mas descamba para uma torrente de peso que mistura thrash metal e metalcore em uma de suas partes, em uma agradável surpresa.

O nível alto foi manido em "Abyssal", o que é ua grande vitória. O potencial de Giant Void é gigantsco.



 

 

 

 

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