domingo, 20 de novembro de 2022

jazz sabbath está de volta

Um trio tradicional de jazz sobe ao palco de uma imponente e sofisticada acasa de espetáculos na Alemanha. Começa a tocar e a plateia gosta, curte e vibra, mas parte dela tenta entender o que está acontecendo? Que músicas diferentes eram aquelas? Que arranjos ousados eram aqueles? Será que o trio era de jazz de vanguaruda?

De certa forma, pode-se dizer que sim. Não é novidade combos jazzísticos se apropriarem do rock para fazer a sua música soar diferente. Alx Skolnick, guitarrista do Testament e ex-várias banda de metal, tem um trio de jazz que leva o seu nome e faz versões de clássicos do rock.

Mas tocar só músicas do Black Sabbath em ritmo de jazz, e da melhor form possível, com o melhor jazz que se pode tocar? Isso é façanha para um projeto muito ousado e capitaneado por um pianista com grife, filho de uma grife ainda maior.

O Jazz Sabbath voltou ao circuito de shows com força neste ano e o ponto alto da turnê europeia foi no Leverkusener Jazzstage 2022, na cidade de Leverkusen, na Alemanha, em apresentação disponibilizada na íntegra no YouTube.  Escutar Black Sabbath em ritmo de jazz tradicional é uma delícia. É revigorante. 

E tudo começou como uma brincadeira, mas o nerd levou a sério. O nerd é Adam Wakeman, tecladista que acompanhou Ozzy Osbourne e próprio Black Sabbath como músico de apoio por anos.

Pelo sobrenome do músico, dá par sacar qual é a grife - ou dinastia - a qual pertence. Integrante mais novo do clã britânico especializado nas teclas, Wakeman, é filho de Rick Wakeman (ex-Yes) e irmão de Oliver Wakeman (nome importante do neoprog britânico dos anos 80). Mais do que familiarizado, tem verdadeira obsessão pelo repertório do quarteto de Birmingham.

“Jazz Sabbath”, o nome do CD lançado em 2018, nomeia o projeto que tinha tudo para dar errado. O próprio Ozzy reclamou bastante, certa vez, de várias passagens jazzísticas no álbum “Never Say Die”, de 1978, o seu último com a banda antes da volta, em 1996.

Entretanto, o álbum funciona se for encarado estritamente como um álbum de jazz. Esqueça que são músicas do Black Sabbath, já que os arranjos da banda que o gravou quase que eliminam as similaridades, digamos assim. Os úsicos as bases, mas os arranjos são muito interessantes.

É antiga ainda é a tradição de pegar clássicos roqueiros e transformá-los em jazz. Vem dos anos 70 essa “mania”, especialmente, com canções dos Beatles e Rolling Stones.

Além dos magistrais trabalhos de Alex Skolnick Trio, há o Crimson Jazz Trio (que recria temas do King Crimson). No Brasil, o Moda de Rock se destaca (em que clássicos do rock são transpostos para a viola caipira) e trabalhos do pianista e tecladista Ari Borger.

Vale destacar que a campanha de marketing de lançamento do projeto foi ruim e quase estraga a boa iniciativa. No texto distribuído à imprensa, acompanhado de um pequeno vídeo supostamente sério, com entrevistas com músicos importantes, os “produtores” falam de um músico genial que teria composto um álbum entre 1968 e 1969, mas que teria sido engavetado pela gravadora enquanto se recuperava de uma doença prolongada.

Recuperado, descobriu que sua gravadora não existia mais, que o dono da empresa estava preso e que o depósito onde as fitas das gravações estavam pegou foto, queimando tudo.

Quase 50 anos depois, as tais fitas teriam sido achadas num canto em um porão qualquer e o músico autor das músicas, Milton Keanes, um pianista, teria conseguido apoio para editar o material e finalmente “desmascarar” os charlatões que teriam roubado suas músicas e as transformado em rock pesado - os "ladrões", um quarteto de rock da cidade de Birmingham chamado Black Sabbath. Tudo piada, mas sem muita graça - tanto que não deu muito certo.

“Iron Man”, clássico dos clássicos, tem uma performance excelente de Adam Wakeman, que fez arranjos criativos ao lado de uma banda de apoio, na segunda parte da música, afiadíssima e mostrando um jogo de cintura contagiante. É outra música.

“Rat Salad”, tema instrumental por natureza, foi a música que mais se adaptou ao projeto e ganhou “novos riffs”, digamos assim, onde piano e instrumentos de sopros fazem duelos memoráveis.

Assombrosa, no entanto, é a versão de “Children of the Grave”, uma daquelas canões que simbolizam o peso o do heavy metal, com os riffs do baixo tenebrosos e uma guitarra que costuma demolir as paredes.

Em “Jazz Sabbath” ela se transforma um uma verdadeira suíte, com passagens intrincadas e uma miríade de riffs sobrepostos executados no piano e com um acompanhamento soberbo de metais. Outro exemplo de música completamente transformada.

Ouvindo-a sem saber que se trata de uma canção do Black Sabbath e sem conhecer a original, pouquíssimas pessoas teriam, condições de de cravar de que se trata de uma versão de “Children of the Grave”. O mesmo pode ser dito de “Fairies Wear Boots”.

Wakeman e os produtores foram felizes em escolher sete músicas dos primeiros álbuns, sendo que três hits estrondosos – “Changes”, “Iron Man” e “Children of the Grave”.

Optando por músicas como “Rat Salad” e “Evil Woman” (quem nem foi composta pelo Black Sabbath), os instrumentistas tiveram um pouco mais de liberdade para ousar e criar arranjos inusitados.

A empreitada era arriscada e tinha tudo para dar errado, mas deu bastante certo. Que Wakeman e os produtores mantenham o projeto e realizem novas versões para as músicas do Black Sabbath.

https://www.youtube.com/watch?v=096Cqsucoy0

https://youtu.be/SXeSuF2SrHw

https://youtu.be/fQc0M-pezr0

https://youtu.be/qWhp5v236qU

https://youtu.be/B4oRwnxfGlU


Nenhum comentário:

Postar um comentário